terça-feira, 26 de maio de 2015

Cardápio de Leitura III

Nada como a morte para trazer de volta a vida. A morte de que estou falando é de ninguém menos do que o matemático John F. Nash que morreu junto com sua esposa Alícia (também matemática) na madrugada deste último sábado (23/05/2015). A vida de que estou falando é a deste singelo Blog, que estava às traças e quase quase morrendo. Amigos tem me perguntado se ele morreu ou não. Pois bem, ainda não, tenho tentado de encontrar tempo, como sempre :-)

Longe de querer comparar esse blog a alguém da envergadura de John Nash, o que pretendo fazer aqui é uma pequena homenagem, e nada melhor do que resgatar a excelente biografia escrita pela jornalista econômica Sylvia Nasar. O livro 'Uma Mente Brilhante' foi, sem dúvida, um dos livros mais interessantes que li no ano passado, e de certa forma um dos livros mais interessantes que li em minha vida (não apenas os de economia, então, já digo que o livro se aproxima do que podemos chamar de alta literatura).

Aproveito a oportunidade e incluo outros livros nessa carreirada. Vamos a eles, lembrando novamente a ordem de classificação para o incauto leitor (que não tem a obrigação de lembrar a ordem, porém recaí sobre mim a obrigação de lembrar-lhe a ordem para facilitar e leitura):

___________________Essencial Muito Bom > Bom > Dispensável > Deplorável

Seguem os livros.


1. Uma Mente Brilhante: Essa resenha vai com um pouco de história pessoal. Primeiro vamos aos detalhes menores, como o subtítulo da capa já diz (veja a figura), esse é o livro que inspirou o famoso filme de mesmo nome lançado em 2002, vencedor do Oscar de melhor filme daquele ano (além de 3 outros prêmios). Sei que é um lugar comum escrever isso, mas o livro é um quintão de vezes melhor do que o filme. O filme tem umas passagens imprecisas sobre a teoria dos jogos, esconde aspectos recônditos e obscuros da vida de Nash e nos retrata somente uma faceta um tanto aguada do personagem que foi John Nash. Por mais que você tenha gostado do filme, recomendo fortemente ler o livro, bem capaz que irá gostar ainda mais do livro. Caso não tenha gostado da versão de Hollywood, recomendo que dê mais uma chance para conhecer a vida deste brilhante matemático. Se você é economista ou trabalha com a área de teoria de jogos, já te adianto minha sentença classificatória: 'esse livro é essencial!'. Pois bem, vai aí um pouco de história pessoal. Desde a época do filme, quando eu ainda estava no meio da minha graduação de economia, eu já sabia que existia um livro biográfico sobre o Nash, porém nunca havia topado com ele em livrarias e naquele tumulto da vida diária eu nunca havia me lembrado de buscar, nem tinha certeza se já havia sido traduzido (não que me importasse muito). Pois então, no começo do ano passado, encontrei na livraria Saraiva em Brasilia um destaque para um outro livro da Sylvia Nasar: A imaginação Econômica (Ed. Companhia das Letras), foi aí que lembrei que Sylvia Nasar havia escrito a biografia de Nash e tive a sorte de achar 'Uma Mente Brilhante' na mesma livraria, e em uma edição com um excelente custo benefício da Editora BestBolso subsidiária da Record (quem tiver interesse corre no link do nome do livro que ainda está com o preço de R$ 29,00 no site). Pois bem, levei os dois livros e comecei a ler pelo livro do Nash, por conta da ordem cronológica e por bem ou mal a vida ter me levado a trabalhar um pouquinho sobre Teoria dos Jogos, então, foi o livro pelo qual decidi começar. O livro começa como uma biografia usual, mas tem um aspecto bem interessante, como bem pontuou Célia Teixeira em resenha feita para o site do Oswaldo Buzzo, Nash viveu em dois mundos opostos: o da Racionalidade e o da Loucura. Esse é um tônus interessante para o Livro, Nasar levanta a hipótese de que Nash muito provavelmente possuía traços de esquizofrenia, uma das doenças neurológicas de mais difícil compreensão. Pouco a pouco vamos acompanhando a relação disso com o gênio matemático de Nash, o livro levanta inclusive a questão de se tal doença catapultava a genialidade de Nash ou se a diminuía ou atrapalhava. O certo é que os anos de tratamento de Nash foram muitos penosos (psiquiatras ainda divergiam sobre a eficácia de tratamentos e precisão de diagnósticos), a autora descreve esses anos também com grande detalhe, o que ajuda a explicar porque Nash ficou no ostracismo por tanto tempo. Independente da doença, Nash tinha uma personalidade interessante, seu talento matemático se mostrou incomum e sua forma de abordar a matemática era atacar de frente grandes problemas. Talvez Nash tenha sido um dos últimos grandes matemáticos generalistas que a matemática do século XX criou, atacava problemas de áreas que iam desde a Álgebra, Cálculo Diferencial, Equações Diferenciais, Teoria dos Números, Geometria Analítica e matemática aplicada (na qual se enquadra a Teoria dos Jogos). Uma das contribuições matemáticas mais importantes de Nash foram seus trabalhos relacionados às equações de Navier-Stokes, pela qual recentemente recebeu o prêmio Abel da Matemática (quase equivalente à Medalha Fields).

Nash era um sujeito intrigante, ao mesmo tempo arrogante e implicante (como prova disso, há a passagem que mostra a ousadia que Nash teve de marcar um encontro com o físico Albert Einstein para explicar aperfeiçoamentos matemáticos à física, isto quando Nash era apenas um aluno de pós em Princeton e Einstein já era tido como o papa da física contemporânea). Mas não há dúvida de que Nash era genial, porém, um pouco de sua arrogância, petulância e jeito de ser fizeram Nash conquistar alguns inimigos nos tempos de mestrado e como professor. A matemática esperava muito dele, e ele mesmo esperava muito de si, os desenvolvimentos das Teses em Teoria dos jogos não foram muito bem recebidos entre os matemáticos, que esperavam desenvolvimentos mais desafiadores da parte dele. Pois bem, a doença jogou Nash alguns anos no ostracismo, mas na área de economia seus trabalhos floresceram dando origem a toda uma área de pesquisa que cresce ainda hoje. É claro que a área deve seu tributo à Von Neumann & Morgenstern, autores do primeiro livro didático organizado sobre o tema, e também pode se dizer que o equilíbrio de Nash era apenas uma generalização do equilíbrio que já havia encontrado Antoine Augustin Cournot (1801-1877), mas Nash conferiu ao conceito, que posteriormente ganhou seu nome, uma generalidade e uma formalização que nenhum outro matemático ou economista havia conseguido, e por isso passou a ser tão citado e lembrado.

Para quem gosta do raciocínio matemático o livro é um prato cheio, a autora não se furta a colocar os detalhes dos pensamentos que guiaram muitas das soluções presentes na vida de Nash e como ele chegou a elas. Para quem não gosta, não precisa ter medo, se me lembro bem, em hora nenhuma, Nasar lança mão de escrever as equações, ela explica o raciocínio sempre na forma de palavras. Para quem gosta de biografias é também uma excelente recomendação. Mais ainda, o livro te prende do início ao fim, as partes que achei mais angustiantes foram as da internação do Nash e seu tratamento à base de injeções de glicose que quase o mataram. Há também um lado humano na obra e na vida do personagem, um homem como todos nós, com defeitos e qualidades e bastante idiossincrático. Foi também um prazer ler esse livro no ano passado, pois eu o li enquanto estive em São Paulo em um evento que contava com a presença do próprio biografado, foi de certo modo um tanto estranho (e talvez um pouco injusto) conhecer e ler sobre a pessoa ao mesmo tempo em que se tomava contato com ela nas apresentações acadêmicas e nos almoços e coffee breaks do evento. Durante todo o evento Nash pareceu um cara muito simples e educado, sempre acompanhado de Alícia que o ajudava e parecia grande companheira.
Ed.: BestBolso, Preço: R$ 29,00. Avaliação: Essencial.

2. O Sinal e o Ruído: por que tantas previsões falham e outras não. Explicar o título desse livro já ajuda a elucidar um pouco o tema. Nos primórdios do rádio era quase impossível se obter uma transmissão clara o suficiente para ser compreendida, sempre havia um componente de ruído (erro) que precisava ser minimizado. Quando ele foi minimizado o aparelho se tornou um sucesso, tanto que foi o precursor da TV (que também tem sinal e ruído). Muitas vezes, a informação passada tinha tanto ruído que se tornava incompreensível, ou por conta do erro, o que o emissor falou como RATO poderia ser entendido como PATO, e aí a confusão de interpretação estava dada. Era preciso destrinchar o sinal entre os inúmeros ruídos presentes em uma mensagem transmitida. Da mesma maneira pode ser entendido o trabalho de um estatístico, o mundo e a natureza estão sempre mandando informações. Nessas informações que a natureza nos envia podem existir padrões discerníveis (os sinais) ou apenas incompreensão e padrões desencaminhadores (o ruído). Se os estatísticos forem capaz de entender padrões podem se tornar especialistas em prever quando determinadas situações irão ocorrer, essa é a premissa de Nate Silver para escrever esse livro. Nate Silver é um estatístico com interesses diversos, desde previsões eleitorais até o Baseball. Ele é um dos nomes por trás do site FiveThirdyEight, blog especializado em dados e previsões dos diversos assuntos. Nate Silver sabe que fazer previsões não é fácil, ele respeita a dificuldade de se fazer previsões em diversas áreas. O autor começa então com as áreas em que foi possível se fazer previsões mais acuradas como previsões de corridas eleitorais (que precisam ser conduzidas de uma forma um pouquinho diferente nos EUA), o Baseball e como usar o scout de jogadores para montar um bom time (quem quiser ter uma boa ideia sobre isso pode ver o filme Moneyball), e a previsão do tempo, que é dificílima, mas tem tido um considerável sucesso. Daí o autor passa a se dedicar aos temas difíceis: previsão sísmica, epidemiológica (para a maioria das doenças) e econômica. Esses são apenas alguns dos exemplos, há vários capítulos interessantes no livro, o qual tive muito prazer de ler (tem até um capítulo sobre o Xadrez e outro sobre Pôquer :-)).

Silver não é condescendente com os economistas, ele mostra que o meio possui um excesso de confiança e não confere muito suas previsões, ou seja, tanto na economia quanto nas finanças as previsões são de má qualidade. Na verdade, como disse no começo, para se aventurar em uma previsão é preciso ter um discernimento muito bom do que é sinal e o que é ruído, o que nem sempre é fácil. Na economia Silver entende que é bem difícil fazer isso, mas o autor discute também que as previsões poderiam se bem melhores se os economistas e profissionais do meio tivessem o costume sincero de revisar suas previsões. O livro faz uma boa discussão entre a diferença entre acadêmicos levantadas a partir do trabalho de Tetlock, que tipificou especialistas de ciência política entre raposas e porcos-espinho (os créditos da tipificação de devem ao filósofo e ativista israelense Isaiah Berlin). As raposas seriam os especialistas maleáveis e bons em fazer previsões, pois reúnem todo o tipo de informação, sendo um pouco mais flexíveis para adotar diferentes teorias, já os porcos-espinhos são diligentes, mas procuram encaixar cada pequeno pedaço de informação em um framework maior, levando-os a ser ferrenhos defensores de uma teoria, mesmo que errada. Uma das lições de Nate Silver é de que os especialistas raposa são os melhores em fazer previsões, porém são os que menos aparecem na TV pois, às vezes, seu discurso não é cativante o suficiente para o apelo midiático. E o autor conclama os leitores a se tornarem mais raposas (por mais que eu não goste disso por ser torcedor do Galo, tenho de concordar sobre esta questão nesse contexto).
Ed.: Intrínseca, Preço: de R$ 29,90 a R$ 49,90 Avaliação: Muito Bom.

3. Os problemas do milênio: sete grandes enigmas matemáticos de nosso tempo. Não sei se vocês conhecem, mas este livro é sobre os 7 problemas matemáticos que valem um milhão de dólares, prêmio concedido pelo Clay Mathematics Institute (CMI), fundado pelo milionário americano Landon Clay, formado em Letras mas entusiasta da matemática. O CMI reuniu uma equipe de matemáticos para propor quais seriam os problemas mais importantes para a matemática responder no próximo milênio, ou seja, problemas que se resolvidos podem abrir novas fronteiras na matemática, gerando mais problemas interessantes e solucionando uma série de subproblemas derivados. O espírito dos problemas do milênio pegam carona nos problemas propostos em 1900 em Paris por David Hilbert. Naquela ocasião, Hilbert, grande matemático da virada do século XIX para o XX, discursou sobre 23 grandes problemas não resolvidos da matemática. Por isso no ano 2000, o CMI decidiu lançar uma série de problemas sobre os quais os matemáticos consensualizavam serem os mais importantes. O autor do livro, Keith Devlin é gabaritado para falar do assunto pois fez parte da equipe responsável por escolher quais seriam os problemas mais importantes a serem resolvidos. Não fosse por Devlin ter se dedicado também a difusão e comunicação da matemática em livros anteriores tal como 'O Gene da Matemática', esse seria um livro extremamente difícil, pois alguns são problemas com que matemáticos lidam por mais de um século tal como a Hipótese de Riemann. Então, os problemas sobre os quais o livro trata não são para amadores. Devlin escolhe escrever o livro e apresentar os problemas por ordem de familiaridade começa pela 1. Hipótese de Riemann; 2. Teoria da Lacuna de Massa (Yang-Mills); 3. Problema P vs. NP; 4. Equações de Navier-Stokes, que um matemático alega ter resolvido, acho que ainda não deu tempo para o Clay Institute verificar a prova, essas coisas tomam um pouco de tempo e por isso anida não está no site do CMI como resolvida; 5. Conjectura de Pointcaré (a única que o instituto considera solucionada); 6. A conjectura de Birch e Swinnerton-Dyer; 7. Conjectura de Hodge. Enfim, o livro trata de problemas matemáticos bem difíceis, tanto que Devlin escrevendo nem parece crer que alguém poderá chegar ao final da leitura, fica toda hora recordando: "se você chegou até aqui...", na verdade essa pouca confiança no leitor é o que mais me irritou no livro, que de resto é muito bom interessante. Ressalto novamente que a proposta do livro não apresentar os problemas de forma que o desavisado leitor saia resolvendo os problemas, apenas fazer uma divulgação ampla da matemática de fronteira. O livro não exige do leitor conhecimento muito aprofundado de matemática além de um interesse honesto. Entre os livros que escolhi nessa seção esse foi um dos que mais me fez deitar a leitura e ficar pensando, os problemas não são fáceis, mas acho que Devlin alcançou seu objetivo, ao terminar o livro dá pra ter uma ideia boa do que tratam os problemas do milênio e o quê os matemáticos de ponta têm feito ultimamente. Isso não é um problema ou defeito do livro, mas eu acho que os problemas do milênio colocam muito foco sobre si, e existem uma série de outras áreas e problemas não resolvidos da matemática, tal como denota a medalha Fields, a qual o brasileiro Artur Ávila ganhou ano passado por seus trabalhos sobre a teoria do Caos (Legal de conferir também há um indiano trabalhando com problemas relacionados ao problema P vs NP, ele ganhou o Rolf Nevanlinna Prize). Enfim, para quem é honestamente interessado em matemática o livro é muito gostoso de ler e Keith Devlin conduz os capítulos muito bem. Em comparação com o livro das grandes equações que fiz resenha aqui no blog esse livro é um pouco melhor ou mais difícil pois trata de temas menos corriqueiros, mas porem menos abrangente.
Ed. Record, Preços: de R$ 58,41 pra cima (da Gradiva, não encontrei mais a edição da capa acima que é a que eu tenho); Avaliação: Muito Bom.

4. Os Pecados do Capital: o guia politicamente incorreto do Capital. Esse livro parece um pouco ter sido escrito por um dos porcos-espinhos do Tetlock, mas possui méritos. A proposta é apresentar ao leitor a perspectiva da economia austríaca sobre diversos assuntos econômicos. Porém as evidências do livro são anedóticas ou então com o uso de referências de outros economistas famosos. O prof. Robert P. Murphy é bem quisto entre os economistas de cunho libertário, suas credenciais são dos economistas e professores da área que atuam junto ao Von Mises Institute. A ideia do livro é partir do geral para o específico apresentando uma série de cases que mostram como o Estado atrapalhou a vida dos seus concidadãos, em alguns desses casos eu concordo, até sou simpático a perspectiva mais libertária, mas muitos outros casos as informações apresentadas por Murphy são questões de interpretação. Na verdade, para mim um ponto problemático com a escola Austríaca é que seus economistas são pouco afeitos a coleta de evidências (são em geral porcos-espinhos) depois eles creem demais no poder redentor do capitalismo. Ou seja de que a liberdade civil e econômica fornecem as únicas e exclusivas ferramentas para a prosperidade. "Por que a escravidão acabou?" -Por causa do capitalismo. "Como podemos resolver o problema do trânsito?" - Tudo bem, deixe que o capitalismo resolva. Enfim, se você é um economista com formação séria você pode dispensar de ler esse livro, pois as resposta em todos os capítulos é "O capitalismo resolve", pronto, sabendo-se disso você já tem a mensagem do livro. Um grande problema dos Austríacos (além do pouco apego a evidências contrárias que já comentei) é que a maioria deles não incorporou a teoria dos jogos, suas evidências e ensinamentos. Confiam demais na decisão descentralizada levando a um ótimo de Pareto. Mas a teoria dos jogos e das falhas de Mercado possui uma coleção de evidências mostrando que sim existem equilíbrios de Nash sub-pareto ótimos. Ou seja, há diversas situações que os austríacos falam que irão dar certo que desprezam interações importantes entre os agentes e que possuem peso. Eu gostaria mesmo que o mundo fosse simples como os austríacos gostam de pintar em diversos casos, mas não é. Um ponto em favor do livro e da doutrina é que muitas vezes o custo de intervenção é bem maior do que deixar o mercado funcionar (esse é um ponto que o pessoal de esquerda geralmente desconsidera). Se você comunga de uma ideologia de esquerda pode ser importante ler esse livro de mente aberta para ver que nem todos os argumentos em prol do governo são tão imediatos. Se você não é um economista formado, vem de outra área, também acho que a leitura pode trazer algo de útil, para um economista neoclássico sério, o livro tem pouco a acrescentar em sofisticação de análise. Para os que já são fãs da escola austríaca, vai aí uma advertência: "Cuidado, amigo, você pode estar entrando numa religião, tão perigosa quanto o socialismo marxista." Eu rogo mesmo que os austríacos fossem mais científicos e mais baseados em evidência, mas até hoje não encontrei nenhum nesse sentido, pode ser, de fato, um honesto desconhecimento, mas pode ser também (e isso o pessoal da escola tem de tomar cuidado) que a economia austríaca seja simplesmente inconciliável com os métodos científicos. E aí o livro cai na categoria de doutrinação e prazer anedótico. Mais liberalismo é bom, mas desde que fundamentado em evidências. Eu gostaria muito que meus amigos de esquerda lessem esse livro, para eles ele pode ter algo de útil, porém sei que ele atingirá leitores que comungam mais dessa corrente se tornando um worship perigoso.
Ed.: Saraiva. Preços: de 33,00 a 44,90. Avaliação: Dispensável.

5. Alex no País dos Números: uma viagem ao mundo maravilhoso da matemática. Esse livro é um pouquinho volumoso, mas talvez seja um dos de mais fácil leitura aqui da lista. É na verdade um livro de curiosidades matemáticas, e muitas delas são realmente curiosas. O livro faz um apanhado histórico da matemática e apresenta a teoria basal de muitos dos usos importantes da matemática. Curiosidades como o quadrado latino ou o Sudoku ou lei das probabilidades e suas aplicações. Outras como o maior número de casas decimais do número PI até hoje calculada, esses cálculos tem implicações computacionais importantes e os procedimentos para se chegar até ele são também interessantes. Também ajuda o leitor a desvendar os segredos do infinito, contando a interessante história de Cantor e o famoso hotel infinito de Hilbert. Finaliza o livro falando de superespaços de uma maneira curiosa. Enfim, é um livro com uma coleção de curiosidades matemáticas. A proposta é apresentar a maravilha dos números, dentro dessa proposta o autor conta alguns desenvolvimentos matemáticos interessantes, fácil leitura.
Ed.: Companhia das Letras, Preços de R$ 27,21 a R$ 47,00. Avaliação: Bom.

Enfim, vou parar por aqui, há outros livros bem interessantes na lista. Quem leu a última postagem do cardápio de leitura deve se lembrar de alguns livros que eu havia prometido. Bom, alguns destes aí passaram na frente, outros já terminei a leitura e há alguns mais interessantes para entrar. Espero que tenham aproveitado as resenhas e até o próximo cardápio.

domingo, 8 de março de 2015

O Caminhão dos Economistas


A eficiência é um dos conceitos econômicos mais importantes, para mim ela é definidora da diferença que os economistas podem fazer na sociedade e por isso a frase "A eficiência é a nossa Diferença" não ficaria mal nos portões de uma faculdade de economia. Em termos gerais, eficiência é fazer mais com menos, ou alcançar um objetivo específico empregando-se o mínimo de recursos possíveis. Em termos específicos da economia, eficiência quer dizer que alocação de bens ocorre entre: 1) aqueles que mais desejam pagar e é 2) ofertada e distribuída por aqueles que podem produzi-la a um menor custo.

É claro que no dia a dia encontramos várias situações de ineficiência, seja ela no mercado, ou em situações em que o mercado nem existe para alguns bens ou serviços. Em situações em que não há mercado é mais provável que as ineficiências ocorram, mas elas ocorrem mesmo em firmas inseridas no mercado e que operam visando lucros.

Na minha modesta visão, cabe a nós economistas identificarmos as situações de ineficiência econômica (e em alguns casos também de ineficiência técnica). Se tudo fosse eficiente o tempo todo a razão social do economista perderia bastante de seu sentido. Reconhecer ineficiências é, na maior parte dos casos, tarefa complicada, envolve, medir comparar e buscar alternativas, conhecer técnicas de produção e técnicas de alocações alternativas, bem como estudar o comportamento dos agentes. Identificada uma ineficiência o economista deve trabalhar para saná-la, tentando propor um esquema de aceitação geral e que alinhe os incentivos para um benefício comum.

Enfim, é por essas e outras que sempre tive vontade de tirar uma foto desse magnífico caminhão e a sua frase sobre a eficiência!

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Histórico do Número de Candidatos na ANPEC

Recentemente tive de me deparar com a tarefa administrativa de procurar o número de candidatos inscritos no Exame nacional da ANPEC nos últimos anos. A tarefa que inicialmente aparentava ser fácil (eu já havia visto gráficos mostrando essa evolução anteriormente) se demonstrou mais difícil do que eu imaginava inicialmente. Isso porque a ANPEC não mantém um registro histórico fácil de ser encontrado em seu site. 

Fiquei pensando que isso pode ocorrer por conta da coordenação do exame ser itinerante. Sendo, dessa maneira, difícil manter um registro histórico de algumas informações administrativas das provas. Encontrar as provas e gabaritos anteriores é bem fácil, elas estão todas relacionadas no site, o registro remonta até o ano de 1990. Porém, resgatar o número de inscritos e de centros participantes a cada ano se mostrou uma tarefa inglória.

Sobre o número de inscritos, por exemplo, eu já sabia que a dissertação do Felipe Bardella trazia alguns dados do número de inscritos. No entanto a série do trabalho dele terminava em 2004, lá se vão 10 anos. Encontrei uma série mais atualizada e aparentemente correta nesse site aqui dada pelo blog "além das curvas". Porém a informação que consta aí vai até o exame de 2008 apenas. Após então uma tarde de muito trabalho buscando ano a ano o número de inscritos na ANPEC (até na Folha de São Paulo encontrei as informações) imagino que elas estão com um bom nível de aproximação. O resultado está no gráfico logo abaixo.

___________________Fonte: Ver o texto acima.

Então parti para buscar uma informação que achei que seria bem mais simples: o número de centros ofertantes de vagas. Que nada! A ideia inicial era consultar os manuais do candidato e ver quantos centros constavam na relação de cada ano. Mas isso se torna impossível pois antes de 2011 não se encontra os manuais do candidato na internet. Entre os anos de 2005 e 2010 tive de interpolar os dados e essas informações aparecem pontilhadas no gráfico abaixo.



___________________Fonte: Ver o texto acima.


Vou tentar resgatar ainda essas informações com mais precisão junto à coordenadoria atual. Porém seria interessante a ANPEC ter o mesmo cuidado que tem com as provas e gabaritos com essas informações administrativas, pois ao longo do tempo um pouco da história da ANPEC pode se perder junto com essas informações, se tornando bem difícil um futuro resgate.

sábado, 2 de agosto de 2014

Luciano Huck coloca um Dilema dos Prisioneiros na TV

Versões televisivas do dilema dos prisioneiros não são incomuns. Silvio Santos em 2002 decidiu implementar um jogo chamado 7 e Meio em que na final dois oponentes, depois de terem derrotado outros adversários, ficavam frente a frente no palco e escolhiam entre o 7, que significava tentar ficar com o prêmio inteiro (não cooperando com o oponente) ou 1/2 (Meio), aceitando partilhar o prêmio (em que, no caso, os dois dividiriam uma quantia menor).

Sabendo-se que o Silvio Santos está sempre ligado no que acontece em programas de auditório dos Estados Unidos, é bem provável que o famoso patrono da SBT tenha copiado o 7 e Meio de versões televisivas do jogo que foram ao ar nos Estados Unidos.

O Dilema dos Prisioneiros é um dos jogos mais exemplares do estudo de economia e de Teoria dos Jogos. É bastante utilizado para se exemplificar o conceito de Equilíbrio de Nash e explorar suas consequências e conceitos. O jogo batizado foi por A. W. Tucker (orientador do Nash) de "Dilema dos Prisioneiros" e foi proposto pelos matemáticos Merrill Flood e Melvin Dresher, que tentaram entender melhor o recém publicado trabalho de John Nash de 1951, que definia um conceito de equilíbrio diferente daquele de maximin/minimax estipulado por Von Neumann e Morgenstern no livro que lançou os fundamentos da área de teoria dos jogos (Theory of Games and Economic Behaviour). O Dilema dos Prisioneiros pode ser definido de diversas formas, uma das mais interessantes descrições que encontrei sobre o jogo foi a que está presente no documentário The Trap Ep.2 (documentário crítico da BBC bastante interessante sobre Teoria dos Jogos, Economia, Política e tudo mais). O texto do documentário expõe o jogo da seguinte forma (tradução livre):

"Um jogo famoso foi desenvolvido na RAND para mostrar que, em qualquer interação, o egoísmo sempre leva para um resultado mais seguro. Ele foi chamado de "Dilema dos Prisioneiros". Há muitas versões, mas todas elas envolvem dois jogadores que devem decidir confiar ou trair um ao outro. Imagine que você roubou o diamante mais valioso do mundo. Você ficaria feliz em vendê-lo a um perigoso gangster, ele propôs encontrá-lo para que você fizesse a troca pelo dinheiro, mas você acha que ele poderá te matar. Então, ao invés disso, você oferece a ele levar o diamante para um lugar remoto (remote field, no original) e escondê-lo. Ao mesmo tempo, ele deverá ir para outro lugar remoto, a milhas de distância, e esconder o dinheiro. Então, você ligará para ele e cada um contará ao outro o lugar do esconderijo. Mas segundos antes de fazer essa ligação você percebe que você pode traí-lo: você fica com o diamante e pode ir pegar o dinheiro (enquanto isso o gangster se dirigiria para uma busca infrutífera em um lugar vazio). Mas no mesmo exato momento, você percebe que ele provavelmente está pensando na mesma coisa que você e que ele pode traí-lo. Não há como você prever como a outra pessoa irá se comportar. Este é o dilema. Mas o que as equações de Nash mostraram é que a escolha racional [deste jogo] é sempre trair a outra pessoa, pois dessa maneira, no pior caso, você ficará com o diamante, e no melhor deles, ficará com o diamante e o dinheiro. Mas se você confiar na outra pessoa você se arriscará a perder tudo pois ela poderá traí-lo, isto foi chamado de payoff do otário."

Não é que hoje vi rapidamente na televisão uma versão revisada do jogo no programa Caldeirão Do Huck. Na versão do Huck o jogo foi chamado de "Quem Fica Com Tudo?". Não vi o programa inteiro, parece que na versão do Huck também haviam mais jogadores, e dois foram selecionados para se aporem frente a frente na final. Pois bem, no programa transmitido de hoje havia duas jogadoras: Dahyanna e Laura. Na etapa final as jogadoras tinham duas opções: "Ficar com Tudo" (F) ou "Dividir" (D). Se ambas decidissem ficar com tudo (declarar F) ninguém ganharia nada. Se apenas uma delas decidisse dividir (declarar D) e a outra decidisse ficar com tudo (declarar F), a pessoa que declara F sozinha leva o maior prêmio e a que escolheu dividir fica com nada. Caso as duas escolham dividir elas ficam com um prêmio menor (asseguram o que elas já haviam conseguido na etapa anterior).

Vamos chamar de 'T' o maior premio e de 'm' o prêmio assegurado pela divisão. Caso os jogadores não cheguem num acordo eles ficam com zero. Suponhamos então que T > m > 0. O Dilema dos Prisioneiros apresentado no programa do Huck é uma forma ainda mais cruel do que sua versão original, pois o jogo não possui estratégia dominante e trair mutualmente não dá garantia nenhuma para nenhum dos jogadores. Vejamos o jogo do programa na sua forma normal em que os payoffs de Dahyanna são apresentados no lado esquerdo do parenteses e o de Laura no lado direito:

--------------------------_______________________
--------------------------|-----|-----Laura-----|
--------------------------|_____|_______________|
--------------------------|-----|-------|-------|
--------------------------|-----|---F---|---D---|
--------------------------|_____|_______|_______|
--------------------------|-----|-------|-------|
--------------------------|--F--|-(0,0)-|-(T,0)-|
---------------Dahyanna---|_____|_______|_______|
--------------------------|-----|-------|-------|
--------------------------|--D--|-(0,T)-|-(m,m)-|
--------------------------|_____|_______|_______|

Ao contrário do Dilema dos Prisioneiros usual, que possui apenas um equilíbrio, o jogo acima possui três equilíbrios de Nash, a saber as ações FF, FD ou DF. Quando estava assistindo o programa formulei rapidamente a matriz para conferir se o resultado do jogo coincidiria com a predição do equilíbrio. Na verdade, eu esperava mesmo que o equilíbrio não se verificasse dado que existem estudos mostrando que as pessoas tendem a cooperar mais (talvez uma certa aversão ao risco se aplicasse sobre as utilidades daqueles payoffs). O que me levantava a dúvida era de que, ao que me parecia, os prêmios de m eram muito menores do que os de T, ou seja, cooperar (Dividir) não dava nenhuma grande vantagem às jogadoras já que T >> m. Ainda assim, o resultado final permanecia um mistério, pois o jogo acima possui três equilíbrios e não apenas um único.

O resultado final de hoje foi o equilíbrio abaixo assinalado:

--------------------------_______________________
--------------------------|-----|-----Laura-----|
--------------------------|_____|_______________|
--------------------------|-----|-------|-------|
--------------------------|-----|---F---|---D---|
--------------------------|_____|_______|_______|
--------------------------|-----|-------|-------|
--------------------------|--F--|-(0,0)-|-(T,0)-|
---------------Dahyanna---|_____|_______|_______|
--------------------------|-----|-------|-------|
--------------------------|--D--|-(0,T)-|-(m,m)-|
--------------------------|_____|_______|_______|

Dahyanna decidiu jogar "Ficar com Tudo" e Laura decidiu na última hora "Dividir". Mais uma diferença em relação ao Dilema dos Prisioneiros original ocorreu no programa do Caldeirão do Huck: no jogo original os jogadores não se comunicam antes de tomarem suas decisões e no programa do Caldeirão isso era estimulado e televisionado. Laura ameaçou Dahyanna dizendo que iria jogar "Ficar com Tudo", mas que poderiam depois, em acordo externo ao que parece, 'rachar' o dinheiro. Ou seja, Laura acrescentou mais uma dimensão ao jogo (veja a forma extensiva abaixo), porém, Dahyanna rechaçou verbalmente a proposta dizendo que não podia confiar na Laura (afinal se Laura jogasse F ela não tinha realmente o que fazer e se tornaria indiferente). O final foi que Laura não manteve sua ameaça e jogou "Dividir" e Dahyanna jogou para ficar com tudo, deu o equilíbrio acima assinalado.

Como o jogo colocou uma comunicação, vamos analisar se a proposta da Laura era realmente crível. Para isso vejamos o jogo na forma extensiva. Laura propôs dividir o prêmio total caso Dahyanna concordasse em Dividir na primeira etapa, e sabemos que os valores de m são muito baixos, então, dividir o prêmio principal é ainda melhor que colaborar na primeira rodada (T/2 > m). No entanto, a proposta de colaboração da Laura não era crível como se diz em Teoria dos Jogos, pois nada poderia garantir à Dahyanna que Laura coloboraria depois do jogo encerrado, ou seja, que dividiria o prêmio maior. Vemos que os equilíbrios não se alteram de maneira nenhuma.

Figura 1 - Versão do Jogo na forma extensiva com alguma, simultâneo na primeira mas com uma proposta de divisão na segunda rodada.



Um melhor comportamento para a Laura seria parecer mais ameaçadora, fazendo Dahyanna de fato acreditar que ela jogaria F em qualquer circunstância. Ainda que isso deixasse Dahyanna indiferente, ganhando zero, isso aumentaria as chances de se pensar que uma cooperação posterior seria possível. Também ajudaria caso Laura tentasse mostrar que não atingir uma cooperação (os payoffs 0,0) é na verdade uma situação pior do que as outras situações, ou tentar mostrar que gostaria de ficar no (0,0) só para ver a amargura da adversária. Isso envolveria jogar com a subjetividade do outro e com a própria, sendo que os payoffs se tornariam mais subjetivos.

Finalmente, não dá pra prever muito o que vai acontecer nos jogos seguintes do "Quem Fica com Tudo?" isso porque existem três equilíbrios diferentes. Outro ponto interessante é que as pessoas podem aprender assistindo aos outros programas, se o aprendizado ocorrer, o equilíbrio FF pode se tornar mais comum. Porém, com o tempo, se FF é bastante comum, os jogadores podem aprender sobre isso e atingir um equilíbrio DD, mas se isso se tornar comum, desviar pode se tornar uma vantagem, enfim, uma série de considerações de jogos repedidos com jogadores diferentes pode acontecer aqui e a coisa ficar mais complexa.

P.S.: Em breve volto aqui para falar do IWGTS 2014 do qual participei como ouvinte nessa semana que se encerrou. O blog Prosa Econômica já postou sobre isso em um material com excelentes fotos.

domingo, 13 de julho de 2014

A Microeconomia dos Álbuns de Figurinhas da Copa (e outras curiosidades da copa)

Olá caros leitores, quanto tempo! Pois bem, hoje é o dia da grande final da copa do mundo de futebol de 2014 (e também o dia mundial do Rock). Fora a grande decepção com a nossa seleção, a copa esteve boa, bons jogos e uma excepcional média de gols (veja dados atualizados abaixo). Não tenho nenhum palpite forte para o jogo de hoje, penso que a Alemanha tem o melhor conjunto, mas a Argentina pode decidir em um pequeno lance e se sagrar campeã, e ninguém poderia dizer que isso seria desmerecido. Pois bem, mas meu assunto principal de hoje é outro e não está particularmente associado com o que acontece dentro das quatro linhas, mas sim fora dela, mais precisamente, dentro das páginas dos albúns de cromos da copa.

Para quem quiser saber detalhes da pré-produção, recomendo essa interessante matéria do Jornal Estadão (de onde tirei a excelente figura ao lado, sem autoria publicada).* Ou então essa excelente matéria da The Economist que tirou as ideias da minha cabeça e está em melhor sintonia com o tema deste post.** Eu mesmo não estou colecionando as figurinhas, mas conversando com amigos e ajudando familiares fiquei intrigado com alguns aspectos dessa atividade econômica. O primeiro deles é o quanto é difícil a tarefa de completar o álbum. Os ganhos com a atividade são marginais, pense comigo, começar o álbum é muito fácil, sabendo-se que um pacote com 5 figurinhas nunca tem figurinhas repetidas, com um álbum novinho, todas aquelas figurinhas de jogadores encontraram lugar e ficamos felizes com o desenvolvimento da tarefa. Porém, a medida que completamos mais e mais o álbum, aparecem cada vez mais figurinhas, e a repetição se torna inevitável e a troca desesperadoramente urgente. Ou seja, como toda criança já sabe, fazer um álbum de figurinhas requer um puta networking.

Ora, um economista fica sempre fica admirado com essas possibilidades de troca. Em particular, eu estava intrigado em tentar descrever que tipo de funções pode descrever esse tipo especial de preferências. Minha linha de raciocínio estava em cima do fato, de que após encontrar a carta procurada (digamos que a figurinha do Messi, por exemplo), o colecionador se sente plenamente saciado daquele bem (a tal carta) e tirar o mesmo cromo novamente se torna relativamente um fardo, não acrescentando nenhuma utilidade... a não ser, é claro, a não ser que essa carta tenha utilidade pela troca. Então, uma carta que já se tem se torna desejada apenas pelo fato de se poder trocá-la por cromos que ainda não se possui. Isso é evidente, mas voltaremos mais a isso adiante, antes vamos tentar entender um pouco a matemática do problema.

Vejamos, suponha, por simplificação, um álbum com apenas 10 figurinhas para completar: A, B, ... , J. Uma pergunta que se pode fazer é: Qual o número mínimo de pacotes é necessário comprar para completar o álbum?

- Sabendo-se que cada pacote possui 5 figurinhas é fácil concluir que com sorte dois pacotes seriam suficientes. Um pacote com A, B, C, D, E e outro com F, G, H, I, J. Ou qualquer dois pacotes com uma permutação entre estes dois primeiros.

Porém a situação acima só ocorre com algum golpe de sorte, pois, nesse caso, existem 252 pacotinhos (sem figurinhas repetidas em cada) possíveis de serem obtidos (10!/5!*(10-5)!). O primeiro que se tira é sempre certo, chance de 100% de se encontrar lugar para todas as figurinhas. O segundo pacote deve ser único para completar o álbum, por exemplo, caso você tenha tirado as figurinhas B, D, F, G, I, o único pacote que o permitirá completar o álbum na segunda tentativa é o A, C, E, H, J. Ou seja, sua chance de completar na segunda chande é de 1/251, ou seja, 0,4%. Porém, com apenas 5 pacotes a pessoa pode ter mais de 50% de completar o álbum nesse caso, e comprando 10 pacotes a chance de completar o álbum é de 99%.

Porém, o álbum real da Copa possui 640 figurinhas! Nesse caso, caso um jogador queira completar o álbum sozinho, sem ajuda das trocas, terá de comprar, em média, 873 pacotes, ou seja gastar R$ 873,00 para completar o álbum sozinho ou R$ 1361,02 para ter 99% de chance de completar o álbum. Conta parecida com aquela dos matemáticos da revista The Economist (coloquei minhas rotinas do R nos comentários).

Agora passemos para um raciocínio mais microeconômico sobre as trocas. Para facilitar esse raciocínio imagine um álbum em que objetivo seja obter 2 figurinhas X e 2 figurinhas Y, ou seja, completar XX e YY. Suponha ainda que os pacotes venham com 4 unidades, podendo ser repetidas de qualquer maneira. Sendo assim, suponha que o colecionador compre um pacote com 4 de X (XXXX) e o colecionador tirou um pacote com uma figurinha de X e 3 de Y (XYYY).

Essa economia tem 5 Xs quando precisaria de apenas de 4 para esgotar o mercado. Em contrapartida possui apenas 3 Ys quando na verdade precisaria de 4 para satisfazer o mercado. Assim trocas que esgotem o mercado não são possíveis. Ainda assim, o primeiro colecionador pode trocar um de seus X excedentes por um dos Y excedentes do seu colega. O colecionador 2 conseguirá satisfazer seu álbum (XXYY) enquanto que o 1 ficará um pouco melhor com (XXXY) ao invés da situação anterior. Há um excedente de uma figura X nesse mercado.

Na figura abaixo apresento uma caixa de Edgeworth transformada para mostrar essa situação inicial e após as trocas. As linhas retas em preto assinalam o ponto de saciedade para cada colecionador (que é possuir dois de cada um dos cromos):

Figura 1 - Caixa de Edgeworth simplificada com a situação Inicial antes das trocas.
Após o colecionador 1 trocar uma de suas X por uma Y do colecionador 2, a situação se torna a abaixo exemplificada. O colecionador 2 atinge seu ponto de saciedade e o colecionador 1 fica um pouco melhor do que a situação inicial.*** Além do ponto desenhado abaixo precisamos supor que não existem mais curvas de indiferença para o colecionador 2. O colecionador 1 ainda deseja melhorar sua situação, mas ele não pode mais fazer trocas com 2, que já está esgotado.

Figura 2 - Caixa de Edgeworth simplificada com a situação após as trocas.
O colecionador 1 tem de encontrar algum outro colecionador com 'XYYY', por exemplo, para trocar e assim completar o mercado. Ou seja, quanto mais participantes nesse mercado, melhor para quem está com um álbum de figurinhas desbalanceado como o colecionador 1. Um modelo mais complexo para as trocas de figurinhas da copa seria o que acrescentasse um custo de se encontrar novos colecionadores, isso colocaria algum 'atrito' nas trocas. E ajudaria a explicar ainda mais porque é tão difícil completar um álbum e ainda mostraria a importância dos custos de transação, que muitas das vezes o mercado realizar uma alocação perfeita.

E agora uma informação de utilidade pública. A copa de 2014 teve uma média de 2,67 gols por partida (não contando pênaltis). O jogo do Brasil x Alemanha, que teve 8 gols e possui um impacto significativo no resultado final (elevando a média em 0,08), ou seja, sem essa partida não igualaríamos a média de gols por partida de 1998. A copa do Brasil reverteu uma tendência declinante vista desde 94, Vamos acompanhar para ver se a média de gols no futebol continua apresentando a oscilação em torno da média de 2,59 das últimas 13 edições. O gráfico abaixo foi atualizado de acordo com os dados da FIFA que baixei em posts anteriores (aqui e aqui) e minhas anotações na última copa.****


Outra informação de utilidade pública para você que ainda não completou o álbum, ainda é possível completá-lo. A venda de figurinhas continua até setembro, e a Panini coloca em algum lugar do álbum que é possível comprar diretamente por correio figurinhas faltantes. Bom, é isso, abraços e boa Final a todos.

Ah sim! Uma última curiosidade: estive intrigado por saber porque o brasão oficial da seleção inglesa não aparecia no álbum de figurinhas, assim como os jogadores não apareciam vestindo a camisa oficial da seleção. Eis aqui o motivo disso.

* Estou sem meus aparatos para fazer um desenho autoral, assim que for possível, tento upar um desenho meu :-)
** Devo a recomendação desta matéria ao amigo Alan André Borges da Costa, com o qual comentei minhas aflições microeconômicas com o tema =D
*** Outra troca possível, que deixaria o colecionador 2 indiferente pela função que representei, seria o colecionador 1 dar uma de suas cartas X, mas ganhar duas cartas Y em troca do colecionador 2. Isso faria o colecionador completar o álbum e o 2 ficar ainda indiferente. Porém podemos imaginar que 2 não aceitará essa troca (pode-se especificar uma função de utilidade um pouco diferente, mais "apertada"). Repare que não precisamos igualar as TMS nesse exercício dado que estamos interessado nos pontos de saciedade.
**** Dados atualizados após a final.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Novos economistas brasileiros pensam diferente e se descolam da antiga geração

Matéria de hoje da Folha de São Paulo me motivou a fazer esse post e a passá-lo na frente de outros que intenciono fazer. A matéria fala de economistas de uma nova geração e tenta rastrear para que lado caminha uma nova geração de economistas em suas pesquisas e preocupações teórico e práticas, bem como suas preocupações em saber como a economia afeta o dia a dia dos cidadãos. 

Entre os economistas mais novos essa divisão sempre foi nítida e ela tem explicações históricas e culturais. Do ponto de vista histórico, a alta inflação que existia no Brasil de longa data e suas manifestações mais agudas no final dos anos 80 e começo dos 90 foi um divisor de águas. Quase todos os economistas formados no período inflacionário do Brasil possuem uma formação de macroeconomistas, muitos deles se preocupam com os efeitos, com os sintômas, tais como inflação, câmbio, nível de juros, salários, preços das commodities, níveis de renda, etc, mas não se preocupam tanto com as causas, em saber quais as causas subjacentes em um plano mais profundo do por quê o nível de preços no Brasil é elevado e geralmente distorcido. Veja uma entevista do Delfim Netto (um dos representantes de uma bem antiga geração) no Correio Braziliense para entender do que estou falando. É claro, existem macroeconomistas não só preocupados com efeitos, mas sim com as causas tais como: produtividade, instituições, ambiente de negócios, educação, saúde, relação público x privado, aspectos demográficos, serviços públicos e várias outros temas e variáveis que afetam diretamente a qualidade de vida do país e dos cidadãos, mas também influenciam nas engrenagens do desenvolvimento futuro.


Ainda hoje o Brasil possui muitos macroeconomistas, o que é natural, dado ainda as preocupações do país. Economistas formados antes do início dos anos 90 no Brasil eram quase que exclusivamente macroeconomistas, os microeconomistas eram espécies raras no mercado e nos departamentos de economia das universidades. No entanto os macroeconomistas mais recentes possuem melhor preocupação com fundamentos microeconômicos e existe maior consenso sobre o que se deve ou não fazer para existir um bom desenvolvimento econômico do país. Com a mudança geral do quadro econômico, muitos economistas passaram para outros interesses não tão vinculados ao nosso quadro de "apagar incêndios", que basicamente fazia com que o grosso dos economistas do mercado fossem contratados para ajudar nos cálculos de correções monetárias. O número de economistas voltado para o interesse em microeconomia, economistas preocupados com a decisão dos agentes e com as formas de produção e organização do mercado, aumentou (ainda são minoria, mas são hoje bem mais frequentes). Uma explicação rápida é de que era praticamente impossível ser microeconomista nos tempos inflacionários, dado que nem os preços relativos se conseguia perceber com muita facilidade.

Sobre a influência do lado cultural, existe também uma importância considerável do estudo no exterior. Os alunos que foram para exterior, saiam de um país de um quadro macroeconômico caótico e iam encontrar lá fora outras preocupações (preocupações estas, digamos, bem mais avançadas do que consertar a bagunça macroeconômica que havia por aqui). Lá os alunos se deparavam com evidências do mundo inteiro, entendiam como variáveis chaves para o progresso econômico (tais como educação, tema que estudo) eram relevantes para o longo prazo, e além disso, tinham contato com pesquisa científica de ponta. Quando voltavam a atuar no Brasil esses alunos traziam isso na sua bagagem, e à medida que íamos ganhando um quadro econômico cada vez mais "normal", os regressos de excelentes cursos de pós graduação no exterior iam mudando a cara das preocupações acadêmicas por aqui no Brasil.

No meu caso, eu me identifico mais com essa nova geração de economistas. Apesar de ter escolhido economia por me interessar pela economia que aparece nos jornais e de uma maneira geral pelo desenvolvimento histórico e econômico do país, dentro da economia eu conheci os fundamentos micro e passei a me dedicar cada vez mais ao assunto. Minhas preocupações com o bem estar e desenvolvimento ainda influenciam no tema principal da educação que escolhi como base, mas dentro disso foi possível entender vários componentes econômicos importantes da produção, dos mercados, dos arranjos alocativos e de como agregar eficiência em nossas atividades humanas. No doutorado eu fiz demografia e pude me ater a alguns comportamentos micro subjacentes. Estudei como as pessoas decidem se casar, ter filhos e o que impacta em sua longevidade, onde elas escolhem morar e por quê, componentes importantes na vida de qualquer pessoa. Nisso, minha tese, como tema geral, se dedicou a estudar como o poder público organiza onde os estudantes estudam e como isso pode impactar na vida dos alunos em um montante expressivo. Para isso foi preciso estudar demografia, matemática, econometria, gestão pública, teoria dos jogos, programação e diversos outros assuntos de interesse que precisaram ser combinados interdisciplinarmente.

Existe ainda um grande caminho para melhoras, nossa macroeconomia ainda reflete resquícios desses antigos anos, o país possui problemas econômicos e sociais próprios, mas de parte existe toda uma geração nova de economistas com boa base que precisa ser escutada. Alguns representantes da antiga geração fazem a ponte com esta nova que ingressou no mercado nos últimos 10 anos, e entre os que ingressam agora. A academia brasileira de economia ainda tem de se desprender de velhas amarras (inclusive no que se refere ao ensino). Para mencionar apenas algumas mais evidentes:

  1. Livrar se do sectarismo, opiniões divergentes são naturais em qualquer ciência, mas isso não deve tornar o conhecimento científico encastelado; 
  2. Quebrar a resistência ao inglês, o inglês é o mais perto que temos de uma língua franca mundial, alunos de graduação que resistem ler inglês estão perdendo tempo em relações aos demais e ficando atrás em relação a todo mundo. O mesmo serve para escrever em inglês. Mesmo que o texto seja voltado para interesses acadêmicos e econômicos brasileiros, deve se estimular sua escrita em inglês, pois assim existe maior possibilidade de inserção e leitura por gente interessada no mundo inteiro. Repositórios de sites nacionais de divulgação e pesquisa, devem se preocupar em ter mais material em inglês divulgado, isso é uma das coisas que estrangeiros mais reclamam no Brasil: muitas páginas não possuem opção para o inglês (algumas delas páginas oficiais do governo), como ter contribuição do restante do mundo e querer impactar no que se faz lá fora se não nos fazemos ouvir? Aliás, eu não deveria esta aqui escrevendo em inglês?! :-); 
  3. Transparência, a academia brasileira ainda é muito pouco transparente. Algumas coisas relacionadas a isso envolvem métodos arcaicos que se repetem por pura tradição. Um exemplo: minha tese possui códigos e dados importantes, talvez, tão importantes quanto o texto. E no entanto, a única coisa da tese que os doutorados no Brasil procuram guardar é o seu texto. Pois bem, ter apenas o texto muitas vezes não serve de nada se não puder ser verificado o que o autor falou, então, os centros acadêmicos de pós-graduação no Brasil deveriam ter um repositório dos bancos de dados utilizados e das rotinas. O mesmo vale para as revistas acadêmicas produzidas por aqui, em muitas delas o enfoque é somente no texto quando em alguns trabalhos, mais de 80% do que e relevante está nos dados e nos procedimentos de pesquisa ou computacionais.
  4. Focar mais nas evidências e menos nas pessoas por trás das evidências. Em economia essa é uma tarefa difícil. No meio econômico costuma se dar muito peso a quem disse uma coisa. Imagino que isso ocorre por que em economia não raro se encontram evidências conflitantes e por isso, ter informações sobre o pesquisador que está relatando uma evidência é uma maneira de tentar verificar seu peso, veracidade e rigorosidade. Mas isso pode ser ilusório, primeiro pode conduzir a um caminho "the winner takes it all", ou seja, se dá muita atenção a quem já possui muita, e pode relevar evidências importantes de um pesquisador menos conhecido. Em segundo lugar, isso pode acomodar os medalhões, pois como eles não precisam ser tão rigorosos no que dizem e já são ouvidos, então, não há muito incentivo no esforço deles estarem mais baseados em evidências.
Há ainda um longo caminho para melhorar o ensino e a divulgação da economia na sociedade brasileira. Uma coisa em comum na nova geração é que ela está mais afeita em aplicar economia em temas diversos e isso tem a vantagem de fazer com que o campo do conhecimento econômico esteja mais próximo do dia a dia das pessoas, e não presente apenas no enfadonho noticiário econômico. Por isso é muito interessante dar um ar mais novo e renovado ao debate econômico no Brasil, os blogs fazem esse papel melhor do que os jornais, que se concentram em vacas sagradas de uma antiga economia brasileira. Sem querer desmerecer o papel dos economistas predecessores, o ideal é que as diferentes gerações de economistas aprendam a conviver umas com as outras e que os economistas de cada geração e de diversas formações saibam compartilhar conhecimentos e percepções, e para que isso aconteça, é importante dar um peso equilibrado para esses diferentes representantes do estudo da economia.

sábado, 5 de outubro de 2013

A Evolução da Pobreza no Brasil nos anos Recentes

Hoje pela manhã um interessante post do Blog do prof. Roberto Ellery me motivou a olhar o banco de dados do Poverty & Equity Data mais de perto para o caso do Brasil. Esse banco de dados é muito interessante e possui diversas informações relevantes elaboradas pelo Banco Mundial. 

No referido post o prof. Ellery mostrava que apesar do aumento do número absoluto de pobres na África Subsaariana, que ocorre desde o início dos dados disponíveis (1981), a proporção de pobres na população africana vem caindo desde os anos 90, tendo se intensificado na última década.

Isso quer dizer que o número de pobres cresce a um passo mais lento do que a população nesses locais. Na África Setentrional & Oriente Médio o número de pressoas vivendo com menos de 1,25 dólares por dia caiu em termos absolutos. O mesmo ocorreu na América Latina. Durante os anos 90, mesmo o número absoluto de pobres tendo crescido, o número proporcional (o poverty headcount ratio) começou a cair na virada dos anos 80, subiu um pouco no final dos anos 90 devido as crises ocorridas nos vários países da região e nos anos 2000 vem caindo mais firmemente, números absolutos e proporcionais.

Movimento similar a este ocorre também no Brasil, o gráfico abaixo mostra os dados para várias linhas de corte de pobreza adotados pelo Banco Mundial: US$ 1,25; $ 2,00; $ 2,50; $ 4,00 e $ 5,00. No Brasil, ao longo de quase todos os anos 90, o número absoluto e proporcional de pobres se mantém relativamente estável. A exceção está para a queda entre 90/92/93 e 95 de 17% para 11% (linha de US$ 1,25). Esses anos não estão no gráfico devido a omissão de 91 e 94 e também porque eu precisava começar de algum ano. Em particular, após os anos 2000, dois anos são importantes e estão assinalados: 2001 e 2003. Em 2001 a proporção começa a cair antes do número absoluto e em 2003 o número absoluto cai de maneira mais marcada e a queda da pobreza se mantém desde essa data. Segundo dados do Banco Mundial em 2009 são aproximadamente 12 milhões de pessoas vivendo com menos de US$ 1,25 dólares por dia.

Graf. 1 - Evolução da Pobreza para o Brasil 1994-2009 segundo diversas linhas de corte do BM
Fonte: Poverty & Equity Banco Mundial.
link: http://povertydata.worldbank.org/poverty/country/BRA
OBS.: O ano de 2000 foi intepolado pois a informação era faltante no banco do Poverty & Equity.

Diversos detalhes estão por trás dessa conta de redução da pobreza. Um deles é o conceito de Purchasing Power Parity (PPP) o qual já falamos em outras ocasiões neste blog. Ao ver os dados tive a impressão de que os ganhos na redução da pobreza poderiam ser ainda maiores expurgando-se o efeito da inflação, ou ainda, o que é mais ou menos ou inverso, não teríamos ganho de redução na pobreza se as linhas de corte fossem corrigidas. Essa impresão é bastante baseada em uma matéria que a Folha de S. Paulo fez sobre o assunto. Além de matéria do Correio Braziliense e outras opiniões e matérias no mesmo sentido em um cenário de fraco crescimento, um mesmo nível para a subida de preços é sentida de maneira mais forte.

Resumindo o ponto, o ganho de renda dos mais pobres precisa ser mais rápido do que a perda de poder aquisitivo devido à inflação. Em uma analogia, a população mais pobre do Brasil precisa subir uma escada rolante ao reverso e para isso precisa aplicar uma força maior nessa subida, pois se ela parar em determinado ponto da escada, vai começar a descer novamente arrastado pela escada. Uma país sem inflação seria como uma escada comum, onde não há perda devido ao "arrasto" da inflação caso a pessoa fique parada.

Como sabemos que o PIB brasileiro não está crescendo em ritmo acelerado, nem a massa salarial, a impressão que fica é que não estamos subindo a escada a passos rápidos a se considerar o arrasto contrário da escada. Porém, na prática, a questão é bem difícil de responder, principalmente por dois motivos: 1) O cálculo do Banco Mundial já está ponderado pela Paridade do Poder de Compra (PPP no inglês), não sei exatamente os detalhes da PPP obtida pelo banco mundial, mas em geral, uma taxa assim tenta manter uma taxa de câmbio que mantêm o poder de dólar fixo, ou seja, considera a diferença da inflação interna e externa dentro do câmbio; 2) Na contramão da PPP, o câmbio nominal valorizou durante quase todo o período, ou seja, pelo menos no mercado cambial, o dólar estava perdendo valor em relação ao Real, mesmo que pouco, ganhar até US$ 1,25 quando essa moeda está perdendo valor frente à moeda nacional não é uma boa ideia para o combate da pobreza.

Sendo assim, minha suspeita inicial é de que o Brasil deveria ter tido muito sucesso no combate a pobreza de US$ 1,25, mas que boa parte dos que sairam desse grupo debaixo deveriam ficar estagnados nos grupos imediatamente superiores e ganhos em outros níveis de corte deveriam ser menores, e eles de fato são maiores para valores de corte menores, como mostra a tabela abaixo:

Tabela 1 - Queda Porcentual e número de pobres que saíram da pobreza de 2003 a 2009
Linha de corte ___| Queda pct___ | No. pessoas (milhões)
______$ 1.25_________|____42%_______| 8.49____________________
______$ 2.00_________|____44%_______| 16.1____________________
_______$ 2.50_________|____40%_______| 19.39___________________ 
_______$ 4.00_________|____31%_______| 24.46____________________
_______$ 5.00_________|____25%_______| 22.91___________________ 
Fonte: Elaborado a partir do Poverty & Equity Banco Mundial.

As maiores quedas porcentuais ocorreram para os grupos abaixo de $ 2,50, mas em número absolutos a queda foi maior entre $ 4,00 e $ 5,00 (sem contar que há um efeito de base). Mais certo é dizer que a queda ocorreu para todos as linhas de corte e de uma maneira mais ou menos equanime entre os grupos. Isso me induz a dizer que a matéria da Folha 'linkada' acima precisaria de maior aprofundamento, pois o que a afirmação de que R$ 7,00 de correção inflacionária tiraria milhões da pobreza, sugere que os ganhos para sair da pobreza seriam bastante marginais, acho que não é o caso.

Em último esforço para entender a situação em um nível um pouco maior de detalhes fiz uma análise do câmbio real (obtido de uma comparação entre o IPCA brasileiro e o CPI norte-americano), a taxa de câmbio nominal e uma taxa PPP obtida do índice Big Mac.

Graf. 2 - Evolução das taxas de câmbio nominal, Real e Big Mac PPP
Fonte: CPI: U.S. Bureau of Labor Statistics
IPCA: IBGE/SNIPC obtido do http://www.ipeadata.gov.br/
Big Mac PPP: http://bigmacindex.org
Câmbio Nominal: anual: BCB - Boletim/BP obtido do http://www.ipeadata.gov.br/

Tanto pelo câmbio real calculado de uma maneira mais rápida e grosseira acima quanto pelo câmbio do Big Mac calculado pelo Mac Donalds®, digo The Economist®, depois de 2006 as duas maneiras de medição da PPP indicam que o câmbio nominal esteve supervalorizado. A sobrevalorização tem um efeito positivo na importação e aumenta o poder de compra em relação aos importados, por outro lado o câmbio PPP deveria ser mais elevado por conta da moeda brasileira se desvalorizar pela inflação mais rapidamente que o dólar. Isso quer dizer, comparar valores em dólares é de certo modo mais seguro dos ganhos do que compará-los em reais (maior ancoragem). Comparando com câmbio real (Big Mac ou Calculado) o ganho de renda dos mais pobres é dificilmente anulado (mesmo se corrigíssemos as linhas de corte pela inflação).

Finalizando, apesar dos ganhos em redução da pobreza, parece claro para muitos economistas hoje que a mão de obra brasileira infelizmente não tem ganhado muito em termos de produtividade, o que se configura em um grande quebra-cabeças aliar valorização do salário mínimo em conjunto com produtividade do trabalho que está estagnada (eu tenho algumas hipóteses, mas isso é tema para outro post). Caso o aumento da produtividade ocorresse, talvez a queda da pobreza pudesse ser ainda maior e ocorreria com maior crescimento econômico. No que diz respeito ao câmbio, vimos que o câmbio nominal esse ano teve forte desvalorização, não sei bem ao certo quais as consequências desse novo patamar cambial, mas não parece que os ganhos de produtividade advirão daí.

domingo, 18 de agosto de 2013

Os Simpsons e a minha Tese

Passou na Fox um episódio da 20ª temporada de Os Simpsons. Nesse episódio os personagens tentam contornar o problema do cadastro escolar de Springfield. Homer e Marge ficam sabendo que a cidade que oferta o melhor ensino público dos Estados Unidos é a cidade de Waverly Hills (qualquer semelhança com a verdadeira Beverly Hills não é mera coincidência). Os Simpsons decidem contornar esse problema de um jeito bem peculiar e coerente com as presepadas da família: Homer procura o mais barato apartamento que seu dinheiro pode alugar em Waverly Hills (um verdadeiro muquifo de um cômodo e sem banheiro), só para ter um endereço no distrito e assim conseguir que Bart e Lisa estudarem lá.

Esse é exatamente o assunto da tese que defendi no último mês de Julho. Em Belo Horizonte, o sistema de cadastro escolar adota um critério de proximidade para a sugestão das matrículas dos alunos. O problema disso é que as melhores escolas de BH se situam nas áreas mais próximas dos bairros de maior renda (os bairros Waverly Hills de BH). Fazendo um paralelo com o episódio do Simpsons mencionado, imagine um pai chamado Romero, que mora no Jardim Canadá, e decide alugar uma pequena kitinete no Santo Agostinho para o filho estudar na EE Pandiá Calógeras, uma das melhores estaduais de BH.

Uma parte engraçada do episódio é que Waverly Hills possui um fiscal para saber se os pais realmente moram lá e não estão tentando burlar o sistema. Por conta disso, Homer tem de realmente morar no apartamento alugado até que receba a visita do fiscal. Veja como o sistema que antes era gratuito se torna caro: a família precisa alugar para ter um ensino melhor (está de certa forma "pagando" pelo ensino) e o sistema público precisa de fato conferir se as pessoas moram em Waverly Hills, um custo privado e um público, dois ônus advindos de lacunas do sistema.

Assista aqui o episódio para ver o que acontece no final. Em Belo Horizonte não sei se alguma família mantém um endereço fantasma para conseguir vaga em uma melhor escola pública, provável que não. O que existe é tentar conseguir endereços de familiares, amigos, e do trabalho. Convenhamos que a solução do Homer é cara demais considerando que no Brasil escolas particulares são mais comuns e algumas mais acessíveis do que escolas particulares nos EUA. Uma possível solução abordada na tese é tentar fazer com que o sistema se aproxime da real preferência dos pais, ao mesmo tempo em que se tenta deixar o sistema público de educação mais homogêneo.

Liberalismo na teoria e na prática: sobre o golpe no centro de Difusão do Comunismo

Neste último sábado (17/08/13) o Jornal Estado de Minas publicou uma reportagem intitulada "Golpe no curso de Comunismo" em que relata liminar do juiz José Carlos do Vale Madeira da 5ª Vara de Justiça Federal. A liminar suspende as atividades do Centro de Difusão do Comunismo (CDC), um curso de extensão da Universidade Federal de Ouro Preto. Lá mesmo no prédio do ICSA - Instituto de Ciências Sociais Aplicadas - onde trabalho, há diversos cartazes de divulgação das atividades do CDC. A liminar suspende as atividades até o final do julgamento da ação popular proposta pelo advogado Leonel Pinto de Carvalho, isso é o que diz o Jornal EM.

Não sei qual será o resultado da ação contra a União nesse quesito, porém, por mais que eu acredite que o comunismo é uma área do conhecimento fora do contexto e que deveria estar legada ao conhecimento ligado à história e aos museus (sem nenhum demérito para as duas áreas, gosto de história e de museus), acho errado essa liminar de suspender o funcionamento dessa atividade de extensão e rogo para que o CDC continue ativo. 

Segundo relata o jornal, o argumento da ação popular é de que o poder público "não pode disponibilizar bens públicos para a difusão de doutrinas político-partidárias por mais relevantes que sejam historicamente". Mas aí cabe uma sutil questão: quanto do comunismo é doutrinamento e posicionamento político e quanto é pertencente ao campo do saber científico?! Por mais ideológico que eu acredite ser o comunismo, acho que não pode se privar a população de conhecê-lo. E quem melhor do que a universidade e os acadêmicos para difundi-lo? Trata-se de um curso de extensão e os interessados em conhecer a ideologia do comunismo, e até um pouco de ciência que tal doutrina possa ter, podem se cadastrar livremente para conhecer essa história, não há compulsoriedade. Não acho que o comunismo esteja ligado necessariamente a qualquer partido, embora haja os partidos intrinsecamente ligados a essa ideologia: PCdoB, PCB, PCO, PSOL, e 'N' outros no Brasil.

Como economista me questiono muito isso: sinceramente não sei o quanto dos ensinamentos de economia em sala de aula são isentos de qualquer ideologia ou doutrina político-partidária. Como economista dito neoclássico tendo a crer que a maior parte do que passo para os alunos é ciência, ou mais proximamente, um simulacro disso. É o mais próximo que os economistas conseguem chegar do referencial científico da hipótese falseável. Porém reconheço que alguns dos axiomas basilares de economia não são puramente ciência, são proposições que até o momento são úteis, são premissas e, por isso mesmo, longe de serem refutáveis. 

Se levarmos o argumento do juiz, ou da ação, ao limite de suas consequências, não poderíamos ensinar grande parte da economia nos cursos, pois por mais que tentemos lidar com isso e apresentar uma visão isenta, não acho que economia é totalmente isso. Outros cursos não poderiam sequer se ministrados e a difusão de saberes estaria limitadíssima. Pensando pelo outro lado, se essa ação vale para o CDC, poderia valer muito bem para um Centro de Difusão da Economia Austríaca, ou um Centro de Difusão do Liberalismo, por exemplo. Sem falar que a autonomia universitária foi de fato ferida como argumentaram professores ligados ao CDC. Um liberal de verdade não pode apoiar o fechamento por decreto jurídico do Centro de Difusão do Comunismo, pois isso é cercear liberdades primárias dos indivíduos escolherem aquilo que querem estudar e conhecer melhor, e cercear a liberdade da universidade ofertar livremente seus cursos. Sobre isso fico com aquela famosa máxima atribuída ao liberal-iluminista francês Voltaire: "Posso não concordar com nenhuma das palavras que tu dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las".

P.S.: Com certeza esse não é o melhor blog de economista da blogosfera, dado que de um economista marginal, mas provavelmente é o melhor blog de economista-desenhista, dado que eu mesmo ilustro alguns dos posts, :-).